terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Sigam-me os bons

Depois de muito relutar resolvi, tardiamente, experimentar o twitter. Não esperem uma grande frequencia.

Clica aí:

https://twitter.com/fabiodart

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Inveja

Enfiei o dedo no nariz, cavuquei até tirar com a ponta da unha uma meleca ressecada e amarelada, olhei bem, era grande pra cacete, nojenta. Peguei o dedo sujo e enfiei no copo, sacudi lá até ela se dissolver no suco. Saí da cozinha, fui até o balcão e entreguei o suco para aquela lorinha metida, escrota do caralho. Ela nem olhou na minha cara de novo, vai beber meleca a filha da puta.
Sei lá porque mas a maioria dos fregueses me dá raiva. A vadia queria deixar uns trocados no balcão como pagamento, disse a ela que pagasse no caixa, ainda fez uma cara nojenta de impaciência. Eu devia era ter molhado meu pau naquele suco.

Eu tenho um emprego de merda eu sei. Trabalhar na porcaria de uma lanchonete não é grandes coisas, tô sabendo, mas é o que eu tenho. Se tivesse coragem, eu botava uma arma na cintura e saia por aí tomando dinheiro desses riquinhos, mas falta disposição. Falta estudo, falta a porra toda. Então tô aqui nessa merda de lanchonete, uns três anos já.
A grana é pouca mas dá pra eu me virar, não sou casado e fujo dessa desgraça. Embuchei uma mina aí, uns anos atrás, assumi não. Sei que nasceu menino, mas nem botei os olhos nele, mora longe agora, deixa lá que o mundo cria. Foi assim comigo e é assim com um monte de gente. Ninguém facilita minha vida, não me sinto obrigado a facilitar a de ninguém.

Trabalhar na lanchonete é um saco, eu fico nessa porra de balcão esperando algum boyzinho pedir um suco, aí grito pro paraíba lá dentro da cozinha que prepara a merda do suco, passa pra mim por uma janelinha na parede, eu entrego pro cara e ele paga no caixa. O chefe nunca deixa a gente botar mão em dinheiro, faz bem ele. Tomás é o nome do gerente, o patrão mesmo a gente quase não vê, o cara tem várias lanchonetes pela cidade. Tomás é o testa de ferro, toma conta da porra toda, ganha até bem o safado.

Como eu disse, é uma vidinha de merda mas da para levar. No começo dos mês tem pagamento, dia de glória, com o bolso cheio faço a festa. Muita bebida, comida e putas. Pelo menos um dia no mês eu sei que vai ser de alegria, depois volta tudo a mesma merda de sempre: contas, trampo, busão cheio, etc.
Chego no trabalho já pensando na hora de sair, enrolo na hora do almoço, me escondo quando tem que carregar caixa para o estoque, Não é nem tanto preguiça, só não vou ficar me esfolando por aquela merreca que pagam a gente.

A galera que trampa aqui comigo é gente boa, até mesmo o Tomás, não tenho do que reclamar. O único cara que eu não gostava é o Edivaldo. Não sem nem explicar porque ele me irritava... Pensando bem, sei sim.
Edvaldo tinha chegado a pouco tempo do interior no Ceará. O bicho é baixinho, feio pra cacete, e tem aquele sotaque horrível que não dá pra entender nada do que ele diz. O que enervava de verdade nele era a felicidade. O cara tava sempre sorrindo, sempre simpático com os fregueses, mesmo quando os moleques ficavam tirando sarro da cara dele. Estava sempre disposto a ajudar, puxa saco do cacete.

Como é que podia ser feliz? O cara tinha um salário de merda, e um trabalho de merda, até lavar banheiro ele fazia satisfeito. Mora num barraco horroroso e é casado com uma magrela feia dos dentes tortos, e ainda assim estava lá sorrindo toda manhã na hora de abrir a loja.
Aquilo me irritava demais. Era pra ele ser o mais revoltado de todos nós, o mais inconformado, o menos satisfeito. Aquela cara de bobo alegre me tirava do serio, aquelas piadas sem graça que ele fazia com os fregueses me davam nos nervos. Aquela atitude humilde e servil me causava enjôo.
A vontade era de sacudir e gritar no ouvido dele: Do que você tá rindo? Meu irmão, tu é um merda! Acorda cara!

Eu nunca disfarcei minha antipatia pelo cara, implicava com ele o tempo todo, caçoava na frente dos fregueses, que morriam de rir e o idiota ria junto, ria de si mesmo, é bem provável que o estúpido nem entendesse a ofensa. Eu espezinhava o sujeito e ele nem ligava, e isso me emputecia ainda mais. Eu tentei deixar para lá, mas não conseguia, não dava pra suportar ficar no mesmo ambiente que ele. O troço foi virando um ódio.
Dia de pagamento íamos todos para a farra, o mané ia para casa dar o dinheiro todo na mão da esposa feiosa. “Ela lida com esse negócio de dinheiro, melhor do que eu”. Babaca!
Até cheguei ao ponto de cantar a magrela dentuça dele, Pensei em fazer a baranga dividir a merreca dele comigo em algum motel barato por aí. Mas a feiosa me dispensou disse que amava o traste e só para evitar confusão não ia contar nada para ele.. Porra! Não sou nenhum galã de novela, mas melhor do aquele merda eu sei que sou. Isso foi a gota d'água.

Fiquei muito puto da vida. Logo no outro dia aproveitei uma distraída do Tomás e meti a mão em uma nota de cinquenta reais do caixa. Subi pro estoque e enfiei a grana e um pacote de pão na mochila do Edivaldo. No fim do expediente, na hora de fechar o caixa, Tomás deu falta da grana. Eu já conhecia o procedimento: Revistar as bolsas de todo mundo.
Acharam o pacote de pão e o dinheiro escondido na mochila do Edivaldo.
Eu ria por dentro enquanto o otário chorava tentando se explicar, jurando que era honesto, que nunca faria aquilo, que preferia passar fome a roubar.
Vi a pena na cara do Tomás, a vontade do chefe era perdoar o cara, mas ele não podia abrir o precedente, não com todos os funcionários vendo que poderiam tentar roubar e ser perdoados. Meteram um justa causa no Edivaldo.

Ele chorava sentando no meio fio da calçada, resmungando que havia sido injustiçado. Que não merecia aquilo.
Eu sentei do lado dele, coloquei a mão no seu ombro e disse: “ Não tem nada a ver com merecimento...A vida é assim mesmo: Injusta. Por mais pouco que a gente tenha, a vida dá sempre um jeito de tirar”.
Ensinei a ele uma valiosa lição de vida. Duvido que ele volte a ser o sujeito satisfeito e feliz que era, Afinal, será que ele pensava que era especial? Que era melhor? Não podia deixar o coitado viver assim iludido, pensando que a vida pode ser boa.
Nesse mundo cão, nessa nossa vidinha de merda ninguém tem o direito de ser feliz.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Faça amor não faça Guerra.

Para as mulheres que reclamam do paixão pelo time de futebol dos seus respectivos parceiros, e também para os babacas que comemoram vandalizando e brigando. Aprendam a comemorar como os torcedores do Barcelona:

Segundo o blog 'Fuera de Juego', do site do jornal espanhoal 'Marca', as maternidades de Barcelona registraram esta semana um aumento de até 50% na média de nascimentos diários. O Hospital Quirón, por exemplo, realiza normalmente nove ou dez partos por dia, número que nos últimos quatro dias subiu para 15. O aumento chamou a atenção das enfermeiras, que fizeram as contas e foram tentar descobrir o que aconteceu de tão extraordinário 39 semanas atrás, tempo de uma gestação. Descobriram a semana mágica do Barça.
Há quase nove meses, na primeira semana de maio, o Barça vivia uma semana inesquecível. Primeiro, goleou o rival Real Madrid por 6 a 2, no Santiago Bernabéu, praticamente colocando a mão na taça do Campeonato Espanhol. Festa na Catalunha. Quatro dias depois, um gol de Iniesta nos minutos finais do jogo contra o Chelsea garantiu a vaga na final da Liga dos Campeões da Europa. E tome comemoração!
Reportagem original aqui

O Xico Sá já disse tudo sobre o tema no texto Testorena Futebol Clube. Assino embaixo.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Sequência

Chovia fraco, as nuvens apesar de pesadas apenas borrifavam gotículas minusculas e espaçadas. Naquela madrugada solitária e fria ele caminhava ouvindo o ritmo rápido dos seus passos na calçada. Nervoso, só pensava em chegar em casa e tomar um banho. Um Estampido, o susto, pressão na nuca. Bateu o rosto no chão.
Cheiro de chuva e morte.

Foi um único e certeiro disparo, o corpo inerte desabou no chão. Ele se aproximou para confirmar o fato. Nunca havia matado. Uma curiosidade maior do que o nervosismo o fez se aproximar do infeliz. O Sangue fluía viscoso do pescoço e se diluia lentamente com a água da chuva. Fugiu desaparecendo na noite.
Cheiro de pólvora e vingança.

O sol chega vencendo a madrugada, as nuvens se cansaram e foram chover em outro lugar. O soldado está entediado a espera do rabecão, o cadáver é apenas mais um formulário em sua rotina. Curiosos cobrem o corpo da vítima, alguem acende uma vela. Na viatura a voz metálica do rádio anuncia mais uma ocorrência.
Cheiro de café e tédio.

A família resignada, já esperava a morte, um irmão se apresenta ao policial, recebe autorização e se aproxima do morto. Ele parece tão desconfortável naquela posição sobre o concreto duro. O toque surpreende, pele está gelada. Um beijo na face. Lágrimas.
Cheiro de cigarro e tristeza.

Foi numa outra noite, essa era quente, com lua minguante e o céu estrelado. O futuro defunto se aproximou delicadamente dela repleto de cobiça. Um beijo no rosto limpo e macio. Ele falava, ela escutava. O samba já cantava cansado e a festa ia terminado, Ele pediu mais uma cerveja e beberam rápido. Seguiram pro barraco. Dessa vez ousado, beijou o pescoço da mulher.
Cheiro de álcool e traição.

A morena de corpo nu e suado encarou o teto com satisfação, deitada no peito do amante não pensava em nada. Observou apenas a fumaça densa do cigarro barato subir lentamente. Estouro. A porta foi aberta com um chute, o marido traído viu apenas a bunda preta do homem pulando a janela.
Cheiro de sexo e tragédia.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Fuga

Era uma noite quente, mas havia uma brisa agradavelmente fresca acariciando seu rosto, ainda estava completamente apaixonado não havia dúvida. Caminhavam grudados ele a carregava carinhosamente no colo em direção ao carro como se fossem recém casados.
A olhava nos olhos e talvez ela tenha suspirado. Ele achou meigo, apesar dela parecer mais exausta do que apaixonada.

Ele foi dirigindo como de costume. Passaram na porta do bar onde deram o primeiro beijo, pela orla da praia onde caminharam de mão dadas por diversas vezes. Viram a fila na porta da boate favorita dela. Era uma última volta, antes de pegaram a estrada para longe da cidade que abandonavam.

Apesar de toda a tranquilidade era uma noite triste, uma noite de despedidas. A viagem que se iniciou antes mesmo de entrarem no carro era sem volta. Ele a olhou sentada ao seu lado, a cabeça recostada no banco, a franja lhe cobrindo os olhos. Ela pareceu adotar aquele ar de indiferença fria que normalmente o irritaria, mas não naquela noite. Não na ultima noite que passariam juntos. As luzes da cidade se fundiam na janela atrás dela, criando um balé luminoso no seu rosto apático. Era uma visão linda. Ele lamentou ter que deixa-la, sofria por saber que depois daquela noite não a veria mais. Não havia jeito, ele sabia.

Pararam no mercado, ela manteve o mesmo semblante neutro e ficou no carro aguardando por ele.
Trouxe para ela um vinho argentino, o preferido dela, não achou as castanhas de caju, mas comprou chocolates e uma bala de leite que ela apreciava muito. Comprou também um cartão e flores.
Pegou para si mesmo um sanduíche e pensou em oferecer um pedaço a ela, mas achou melhor deixa-la em paz.

Seguiram viagem, ele olhou para trás vendo as sacolas no banco traseiro, havia biscoitos, cerveja, papel higiênico, querosene, lâmpadas, rúcula, alguns temperos, miojo, queijos, água, velas, fósforos, uma lanterna, xampu e sabonetes, cobertores, toalhas, um monte de coisas úteis e outras completamente inúteis.

Mas acabou esquecendo justamente da maldita pá.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Calada

Bati muito nela mesmo, dei porrada com cabo de vassoura até ela apagar, depois catei uma faca e sangrei o vira lata dela. Era muito ódio, não foi coisa de pensar não.
Ela só acordou no outro dia, já tava pensando em enterra-la no mesmo buraco que aquele pulguento maldito.

- Você tá bem, mulher?

A danada não respondia. Depois da surra ela passava o tempo toda na cozinha evitando minha presença, nem mesmo na hora da novela ela vinha pra sala. Só abria a boca para dizer se alguma coisa estava faltando em casa, e mesmo assim só falava depois que eu reclamava da qualidade da comida ou da sujeira.

A noite eu tentava me aprochegar. Apesar de tudo ainda tinha necessidade das carnes dela. E a rabugenta fingia que dormia.
Até que um dia não aguentei, encochei ela assim mesmo, afastei a calcinha pro lado e mandei ver. Ela lá, só ficava muda nem reclamava nem nada. Talvez fosse melhor assim, quietinha.
E seguiu-se assim. Eu só pegava ela de lado ou de bruços, a danada se virava para não ter que me olhar na cara. Sempre calada, não soltava gemido, não demostrava tesão nem nojo.

Foi ficando cada vez mais calada, dia após dia, até que me acostumei a ler as expressões dela. Rosto de um jeito, falta carne. Um muxoxo e apontava a despensa era porque faltava feijão ou outro mantimento. Sobrancelhas erguidas apontando queixo pro banheiro, papel higiênico e por assim ia.
Passaram meses e me acostumei com aquilo. Era como ter uma mulher muda. Nem era ruim. Ela cozinhava e limpava bem e ainda tinha uma bunda farta. Não reclamava, nem me incomodava com nada.

Os vizinhos estranhavam a mudança, a quem perguntava eu dizia:

- Isso é coisa da cabeça, ela caiu lavando o banheiro e ficou assim meio lesa, com tempo deve passar.

Deve ter sido mesmo a paulada que dei na cabeça. Me arrependo não, ela mereceu. As vezes penso até se não devia ter matado e enterrado junto com o cachorro. Mas sou temente a Deus e lá na lei dele diz: “Não matarás”.
Sei que Deus também não me condena pelo corretivo que dei nela. Ela também deve saber que mereceu. O que ela fez foi muito errado. Trepar com cachorro não tá certo. Transar com animais é coisa de quem tá com o capeta no corpo. Só podia ser... A pessoa não se da conta do que faz quando tá possuída.
Aquela cena não vou esquecer nunca. Aquilo vai me assombrar pro resto dos meus dias. Chegar em casa e pegar sua mulher engatada com um cachorro é de enlouquecer qualquer um. Enchi ela de paulada e depois furei o bucho do bicho, fiz ele sangrar até morrer.

Já se passou muito tempo, ela nunca mais falou comigo, as vezes quando chego em casa pego ela choramingando ajoelhada em cima do lugar em que enterrei o pulguento, isso me dá raiva, dá vontade de ir lá e acabar com a vida da infeliz.
Mas o que há de se fazer? Afinal, jurei lá na frente do padre, ela é minha mulher.


* inspirada em uma história bizarra que li em algum lugar, queria dar o crédito, mas não lembro.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Deus tem um plano para você

- Deus tem um plano para você, ele ama a todos nós. Ele é a solução para todos os seus problemas
- É isso aí. Louvado seja Deus, a bebida e os bares!
- Não zombe de Nosso Senhor, ele te deu a vida. E não foi para você desperdiça-la dessa maneira.
- Deus nos deu a vida para cada um cuidar da sua. Cai fora beata!

Foi assim que me livrei da chata que tentava me converter na porta de um bar. Era uma terça feira a noite eu enchia a cara sozinho.
Malditos aproveitadores, aposto como ficam procurando lugares onde da para se sentir o cheiro da desgraça: bares, hospitais,funerais... Qualquer lugar onde se possa encontrar uma alma desesperada o suficiente para se apegar a uma religião. Abutres rondando carniça. O pior é que realmente acreditam na baboseira que pregam. Reino dos céus é o caralho, se é para ser recompensado quero pagamento à vista, não aceito cheque pré-datado.
Amassei o panfletinho que ela me deu, se o papel fosse mais fino eu apertava um baseado com ele, talvez a palavra de Deus desse uma onda maneira.
Sou um bêbado desgraçado, ninguém precisa me dizer isso e muito menos se apiedar de mim. Só estava ali curtindo minha desgraça, enchendo meu vazio com álcool, na paz. Não queria compaixão não queria salvação, sou ateu. Quem precisa de Deus quando se tem vodca? Louvado sejam os malditos russos.

Por tédio acabei lendo a porcaria do panfleto, não lembro bem o que dizia , alguma coisa sobre perdão e redenção, promessas de paraíso e outras baboseiras... De repente o álcool parecia não bastar. Meu vazio pedia por outra coisa... Um pouco de sexo talvez.
Vasculhei a agenda do celular a procura de alguma mulher disposta a me encontrar naquela noite. Foder e partir somente, sem firulas.
Leila, uma coroa meio caída, mas que sempre estava louca por um pau duro cheio de porra fresca, pareceu a única opção viável naquele momento. Ela era carente o suficiente para me deixar entrar na casa dela, fode-la por meia hora e ir embora sem ter que inventar desculpas, talvez até me oferecesse algo para comer, ou melhor ainda para beber.

Liguei: Caixa postal – Puta merda!

Pedi outra dose, quando vi um infeliz ainda maior do que eu do outro lado da rua, gritei por ele. Nada pode ser mais agradável para quem está na merda do que encontrar alguem que está ainda pior da que você. É como a porra de um prêmio de consolação que faz você se sentir um pouco menos ferrado.
Era um conhecido das antigas, um viciado com vocação pra corno. O cara já estava chapado, nem precisei insistir para que se sentasse, estava avido por companhia. Bebemos, conversamos... Ouvir as desgraças dele fazia as minhas parecerem menores. A merda é que os problemas dele sempre estavam relacionados a alguma mulher que lhe deu um pé na bunda e como ele sempre se apaixonava e se lascava.

Vira viado então, porra! - Pensei mas não disse.

Ele lembrou que anos atrás disputamos uma menina. Uma mulatinha de peitinhos duros e ancas largas, dormia como um anjo e fodia como o capeta. Eu nem lembrava o nome dela.
Amanda, ele me disse. Ela havia sido importante para ele. Estimulados pela bebedeira, falamos e falamos, rimos e nos perdoamos. Foi simples e sincero, uma mágoa a menos para ele. E menos uma culpa na minha vida, santo álcool

Fechou o bar e não havia mais tempo para encontrarmos outras mágoas para exorcizar, tentei implorar ao garçom uma ultima dose, mas não houve jeito. Partimos para outro bar, eramos agora dois infelizes unidos... Melhores amigos enquanto estivéssemos bêbados. Perdoar e fechar bares fazia parte da nossa desgraça.
Sentamos numa mesa alguns quarteirões adiante, um bar alegrinho demais para nosso estado de espírito, mas tinha bebida barata e ia servir. Uma menina chegou perto e pediu um cigarro.

Perguntei se ela, por caridade não podia beijar o infeliz ao meu lado. Senti que devia isso a ele.
Contei a ela umas estórias tristes da vida dele, misturando com algumas piadas, enquanto o coitado balançava na cadeira tentando manter o olhar em foco.

- Ele só precisa de um beijo, nem que seja por caridade, por amor ao próximo.

Tava no papo. A menina ria das piadas mais sem graça, que incentivadas pela bebida, brotavam da minha boca. Ela não era grandes coisas, mas dava um caldo. Meu companheiro lá virando mais um copo, sem dizer palavra alguma. Ela se aproximou dele molhando os lábios.
Foi justamente quando o pateta virou para o lado e vomitou. Que merda! Respingou meu tênis todo.

A garota saiu fora, meio enojada meio irritada.

A partida estava ganha e ele estragou tudo, desanimei. Eu Já tinha bebido o suficiente para conseguir dormir. O cansaço me fez descobrir que eu só estava bebendo para conseguir dormir.
Eu queria ir embora, mas o desgraçado queria mais. Queria mais bar, mais noite, mais desgraça. Dava para ver a sede nos olhos dele. Aquela estória com a tal Amanda havia nos unido, não se abandona um parceiro de bebedeira no meio da noite. Continuamos bebendo.
O cara tava na merda e precisava de uma mulher, ajuda-lo talvez acalmasse meu vazio. tentei convence-lo a ir à um puteiro, ele não topou... Disse que queria ir na casa de um tal de Paulo para dar porrada nele. Brigar não é muito a minha, resolvi ir dar uma mijada e pensar no assunto.

Quando voltei encontrei ele estático, paradão. Me olhou com uma cara esquisita.

- Vou embora.
- Que merda é essa de ir embora? Seu puto, você não disse que queria o fim do mundo hoje?
- Cara, tô cansando dessa merda toda, cansado de sofrer e chorar de me foder.
- Bebe mais que passa, porra.
- Não. Chega disso. Li essa parada aqui – Acenou o panfletinho evangélico, deve ter caído do meu bolso.
- Tá de sacanagem? Isso é papo furado, cara.
- Não aguento mais. Preciso mudar. Aqui tá falando tudo isso, todas as angustias, medo... Tudo vai passar, tem que passar.

Fiquei puto com aquela conversa, Queria dar um murro na cara dele. Fui para casa com a cabeça para fora do carro sentindo o vento, lutei contra a fechadura da porta e realizei meu objetivo: caí na cama com a mesma roupa e dormi profundamente.

Soube depois que ele realmente se converteu, largou o pó, casou com uma mina da igreja e tem um trabalho escroto num supermercado. Otário iludido, acho que aquela porra funcionou mesmo para ele.

Eu continuo bebendo para conseguir dormir.