segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O gato

Os pelos eram pretos e lustrosos, os olhos amarelos e tinha uma coleira com uma medalhinha prateada, onde provavelmente estava gravado o nome dele. Eu nunca gostei muito de aminais de estimação, mas fui com a cara daquele gato.
Ele estava parado na porta de uma petshop. Eu o observava enquanto tomava café da manhã na padaria em frente, me chamou a atenção o fato dele estar, não apenas parado, mas completamente congelado. Nenhum músculo se mexia, nenhum pelo saia do lugar, os olhos amarelos fixos e imóveis. Nada o perturbava.
Cheguei a pensar que talvez ele fosse empalhado. Apesar de não compreender por que alguem gostaria de conviver com o cadáver do seu bichinho de estimação, tenho certeza de que existem pessoas que curtem a idéia.
Dava aflição, aquela paralisia era quase hipnótica, fiquei observando tentado pegar o movimento de uma respiração ou quem sabe o vento balançando os bigodes, qualquer coisa que denunciasse que o bicho estava vivo e não era nenhum objeto da decoração.
Ninguém entrava ou saia da loja para criar uma perturbação que fizesse ele se mover. continuava lá imóvel no canto da porta. Deu vontade de atirar uma pedra ou dar um grito, Já estava pensando até mesmo em ir até lá conferir de perto depois que pagasse a conta. Foi quando o danado me surpreendeu: Ele deu um único salto e ficou claro qual era a razão da paralisia.

Ele estava concentrado em alguns pombos que circulavam na calçada bem perto da porta da loja. Esperando que algum deles fosse estupido o suficiente para chegar mais perto, nisso eu concordo com o gato sempre achei que os pombos tinham uma aspecto de idiotas. Pois o plano do bichano deu completamente certo.
Como eu disse, ele deu um único pulo e caiu exatamente em cima do pombo. Tomei um susto tão grande com a ação repentina, que me levantei do banco e derramei um pouco do suco de laranja no balcão.
A luta entre pombo e gato foi rápida, durou um pedaço mínimo de segundo, os dois rolaram pela calçada, o gato com as garras cravadas e o pombo de debatendo espalhando penas para todo lado, até que conseguiu se desvencilhar e saiu voado todo torto. Ele ainda deu um salto no ar para tentar alcança-lo mas não conseguiu. Brincou um pouco coma as penas no chão depois voltou para a porta da loja, sentou e tranquilamente começou a lamber os pelos das patas.

Um funcionário da padaria veio com um pano para limpar o suco derramado.
- Caraca, você viu aquilo? - Perguntei
- O Que?
- O gato quase pegou o pombo.
- Ah... Isso? Todo dia ele tenta, mas nunca pega – Me respondeu com uma voz entediada.

Uma coisa corriqueira para ele e eu achando extraordinário, pensando que estava assistindo ao Discovery Channel ao vivo.

Achei muito legal. O bichinho mantinha os instintos vivos e ativos, talvez ele não precisasse pegar o pombo, não precisava da carne da ave para sobreviver, provavelmente estava com o estomago cheio de whiskas sachê, ou outra ração afrescalhada para gatos. Mas ainda assim caçava. Não era porque estava perfumado e com uma medalhinha ridícula pendurada no pescoço que ia deixar que os pombos ciscassem inocentemente no seu território. Muito abuso, ele era o predador e exigia respeito.
Mesmo todo mimadinho pela dona, (e eu o imagino lá aconchegado no colo dela, bem perto dos seios, quem sabe brincando com as sardas que ela possa vir a ter naquele pedaço de pele. Ou tentando agarrar os fios de cabelo dela) ele não abandona o impeto de caçador, talvez só pela farra, só para mostrar a si mesmo que consegue,ou talvez só porque seja mais forte de que ele e não consiga resistir a sua própria natureza.
O fato é que se um dia ele for abandonado, ou se cansar da boa vida de mordomias, vai saber se virar sozinho caçando pombos e ratos por aí.
O bicho é manso, mas nem tanto.
É... Curti mesmo esse gato.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Xiiiiiiiiiiii

Foi num carnaval, não sei bem de que ano, 2001 ou 2002 talvez. Fazia calor disso eu me lembro bem. Estava lá na minha quando a vi atravessando a rua. Passos bem curtinhos mas apressados. Usava um vestido branco, bem leve e com umas estampas de flores, acho.
Ela contornou o carro parado na calçada, e parou no espaço estreito entre ele e o muro, exatamente onde eu me encontrava. A menina nem me notou e para meu espanto arriou a calcinha até os joelhos agachou, segurou a barra do vestido com umas das mãos e com a outra apoiou no carro, para garantir o equilíbrio. Xiiiiiiiiiiiii, começou a mijar.
Fiquei ali de pé observando a cena insólita, do alto uma visão privilegiada do generoso decote do vestido. “Belos peitos” pensei.
Ela obviamente bêbada, começou a resmungar, até que disse em voz alta:

- Foda-se, porque só os homens podem mijar no meio da rua.
- Isso aí gatinha, direitos iguais – Respondi.

Então ela finalmente notou, eu ali parado de pé segurando o pau e também mijando encostado no muro. Deu para ver a surpresa e a vergonha nos olhos dela, olhou para baixo e provavelmente viu o liquido amarelo que escorria por baixo de suas pernas descendo pela calçada, encontrando com a minha urina espumosa e juntos formando uma pequena poça num rebaixo da calçada até desaparecer embaixo do carro.

- Pervertido, sai daqui.
- Pervertido eu? Estava aqui mijando em paz, antes de você aparecer. Não que eu esteja reclamando, achei até bem legal.
- Sai fora, não vou ficar com um escroto igual você, não achei minha boceta no lixo.
- Quem não quer sou eu. Não achou no lixo, mas tá quase esfregando ela no chão.

Ela levantou furiosa, tentou vir na minha direção, mas esqueceu a calcinha no meio das pernas, cambaleou, ainda a segurei por um dos braços, mas não adiantou, A menina rodopiou e se estabacou de bunda na poça de mijo.
Não consegui evitar o riso, ela derrotada começou a chorar. Ajudei-a a levantar, comprei num vendedor ambulante uma garrafa de água para ela se limpar e uma lata de cerveja para se animar.

- Poxa, desculpa a grosseria, você é bem legal e bonitinho também, posso até te dar um beijo para agradecer.
- Não, não. Sou um escroto e pervertido mesmo. Tô indo nessa, bom carnaval pra você.

Saí andando apressado para ver se ainda alcançava o bloco que já virava a esquina lá na frente.



Nota do autor: Era para ser uma estória engraçada, mas não consigo escrever textos com humor, mesmo depois de ler essas dicas aqui.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Instante

A adrenalina baixou. Seu coração parecia que ia voltar a bater normalmente. A respiração ofegante entrecortava seus pensamentos, apenas flashbacks confusos e em câmera lenta do que acabara de ocorrer. Imagens desconexas de uma explosão de fogo e fúria.
Não acreditava, mas era ele mesmo ali. A dor no estomago característica do seu nervosismo estava lá para lembra-lo de que não era sonho.
Haviam sons, muitos sons, mas tudo era um ruido abafado, só o vento era perceptível uivando baixinho no seu ouvido um zumbido doce e triste. E lá estava ela, aqueles olhos cor de gasolina se destacando na paisagem desfocada. Não consegue lembrar do nome, mas não pergunta e ela por sua vez não reponde. Apenas o olhar colorido, brilhante e lacrimoso. Queria toca-la, estendeu a mão mas só achou o vazio do ar.
Desiludido, fecha os olhos, quer dormir tomado por um desejo irresistível de descansar. Os abre novamente, ela ainda está ali. A distancia entre eles desaparece num vazio escuro, o ventou uiva mais forte e ele se vê com treze anos em queda livre quando caiu do galho mais alto da mangueira do quintal, um arrepio percorrendo a espinha.
Então tudo para e ele está de volta à paisagem desfocada, porque as mãos dela o tocam como uma folha que cai lentamente de uma árvore. Estão tão quentes, e ele toma consciência do frio que sente.
Não era sonho de fato.
Sinto muito ela diz e ele não ouve, mas pode ler a frase em seus olhos. Olhos que bastariam a mais pequena fagulha, para se inflamarem novamente.
Ele percebe o sangue na camisa escura do trabalho. A dor que já não sente. O ar que não preenche os pulmões. Se da conta de que aquilo tudo é o fim, a ansiedade do ultimo suspiro, e junto com ele o uivo do vento traz o nome à lembrança: Bel... Isabel. A maldita.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Ontem

Foi um domingo de sol muito sol. Calor é bom depois de dias de frio.
Um dia de acordar cedo, passear e ver paisagens bonitas. Maresia invadindo o nariz
Uma manhã de correr atrás de criança, de tomar sorvete e água de coco. Refrescar o suor.
Domingo de almoçar com amigos. Rir de histórias já contadas.
Dia de cochilo e preguiça. Dormir de barriga para cima no meio da tarde.
Fim do dia com peixe frito e cerveja. Zoar os botafoguenses e tricolores.
Noite de dormir embriagado. Apagar de cansaço.

Domingo feliz?
Nem tanto

Porque foi mais um dia sem ela.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Semelhança

- Caraca! É igualzinho mesmo!
- Eu disse que era.
- Chega a dar aflição, é quase idêntico.
- Ele deixa a barba crescer para ficar ainda mais parecido.
- Puta merda, isso parece meio doentio.
- Que nada, o cara pega um monte de mulher por causa disso.
- Tá de sacanagem, né?
- Não, é sério. Eu já vi. A mulherada dar maior mole para ele.
- Você tá me dizendo que as mulheres ficam interessadas nele, porque é um sósia do Renato Russo?
- É isso aí. Pega geral.
- Ele toca violão e canta?
- Porra nenhuma.
- É o tipo de coisa que não consigo entender. O Renato Russo era feio e gay.
- Não tenta entender, cara. As mulheres as vezes são bem escrotas mesmo.