quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Sede Santa

Jurandir, era mais conhecido no loteamento como Jura, figura temida em toda região. Matador que aterrorizava o local com sua própria justiça, ex-policial vivia de bicos como segurança e de doações extorquidas dos comerciantes da região.
Semana passada mesmo havia queimado três moleques que tentaram montar boca de fumo na quadra cinco. Todos sabiam que era filho e protegido de Exu, frequentador do terreiro de Pai Mariano e corria o boato de que dava o sangue de suas vítimas para o Santo, diz-se até que tinha o corpo fechado.

Há uns três meses montara casa para Kelly, menina de dezesseis anos, filha de Seu Paulo mecânico.
O pai da menina tentou protestar quando soube do engraçamento da filha com o homem de fama ruim. Jura entrou na casa do sujeito chutando a porta e tomando a menina pela mão, instalou-a numa casa duas ruas depois da qual morava sua esposa Irene.

Havia acabado de tomar algumas doses de cachaça no boteco do Chicão e exibia seus dentes de ouro num sorriso largo. Levantou-se meio trôpego as guias no pescoço balançando. Raramente pagava a conta, ficava como desconto pela taxa de segurança.
Chegou na casa de Kelly trocando as pernas. Encontrou a menina sentada no sofá assistindo TV. Um short curto e um top mal lhe cobriam o corpo franzino mas bem formado. Caiu em cima dela enfurecido de excitação, com dois movimentos a despiu, Abriu-lhe as pernas e penetrou furiosamente. Cinco estocadas e gozava satisfeito o bafo de cana saindo do sorriso dourado. Girou para o lado, escorregou e sentou no chão apoiado no sofá. Ela deitou-se e começou a mexer nos cabelos ralos dele.
Com voz doce soltou a bomba:

- Acho que tua mulher não te respeita mais.

- Como é?

- Dizem por aí que ela anda muito na igreja do pastor Cláudio, falam até que ele anda na sua casa.

Ela mal terminou a frase e levou uma bofetada na cara.

- Minha mulher há tempos freqüenta essa igreja. Tu não vem me criar intriga porra, que te arrebento os dentes!

Saiu novamente, sentindo raiva e uma ponta de dúvida no peito que só aumentou ao ver o Pastor Cláudio na portão de sua casa conversando com Irene. Só com olhar demonstrou que não estava gostando daquilo. O Pastor logo tomou seu rumo.
Mal entrou e a mulher começou:

- Jurandir, tu não pode continuar bebendo tanto assim - Jurandir isso Jurandir aquilo.

- Tu tem que ir na igreja... Jurandir para de bater tambor naquele saravá lá... Isso é coisa do Demo.

- Mas que saco, mulher! Não implica com minhas coisas. Tu tá com medo de algum Espírito me contar algo é?

- Não temo essas coisas do tinhoso não, o Espírito Santo é mais forte do que qualquer outro.

- Deixa estar que o que tá escondido logo aparece.

Naquela noite, no terreiro de Pai Mariano, foi alertado por um caboclo, de que o Pastor estava em sua casa naquele exato momento. Não teve dúvidas e partiu enfurecido.
O dedo nervoso no gatilho da arma atirou no vira latas, que começou a latir no portão, de tanta raiva que sentia. Chegou quase botando a porta abaixo. Surpreendeu a mulher o pastor e mais meia duzia de senhoras chorando.

- Tanto berreiro por que? Tão perdendo a fé em Deus, ou alguem aqui já sabe que vai morrer?

Ele não sabia porque mas tinha que matar alguem, não havia flagrado nada. Só estavam ali rezando mesmo, mas sentia que o Santo queria sangue.

O Pastor, a esposa e as Beatas começararm a orar fervorosamente, pedindo misericórdia à Deus.

Por fim não tece coragem de atirar em ninguém. Todos ali de joelhos num misto de oração e choro, uma barulheira de doer os ouvidos. Atirar em gente rezadeira poderia acabar em dívida com o Capiroto.

Mas a vontade de largar o dedo no gatilho não passava, saiu e deu mais um tiro no cachorro, pegou uma faca e recolheu o sangue dele numa bacia e voltou ao terreiro disposto a engabelar o Santo.

Já não sabia se era Espírito ou não, Só viu pai Marino com os olhos revirados na maior agarração com a amantezinha Kelly.
A Coragem que faltou em casa despertou ali no terreiro, meteu a arma no meio dos olhos brancos do velho e disparou um tiro abrindo-lhe a cabeça, na menina que tentou fugir deu mais dois pelas costas.

Se foi tramóia mal sucedida de Pai Mariano que era desafeto declarado do Pastor Cláudio, nunca se saberá. O fato é que o Santo não se deixou enganar e o sangue do cão não bebeu mas teve sua sede saciada. E Jurandir saiu satisfeito tendo cumprido sua parte fornecendo o sangue humano prometido.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Amanhecer

Chope gelado, cigarros e uma morena bem disposta. Sexta-feira, uma mesa de bar. Sentia-se bem o suficiente, não havia do que reclamar. Virava-se para os lados rapidamente para observar as pessoas à sua volta, então retornava para a conversa que não interessava. Trocava palavras sem pensar muito nelas, tentava concentrar-se nos olhos e não no decote, nos peitos. Tentava virar seus olhos para longe do vazio. Olhou para o céu sem lua, para os telhados dos bares em volta e desceu novamente para o rosto dela. Tragou seu cigarro, coçou os cabelos da nuca e pediu a conta.
- Vamos para outro lugar?
- Bora!
Começava mais uma a noite.

Rodaram um pouco pela cidade, caminharam pela praia, ele continuava fingindo estar interessado no que ela tinha a dizer. Ela se deixava enganar, por que simplesmente não conseguia parar de falar, E se parasse sabia que acabariam num silencio constrangedor. Foi com alívio que resolveram deixar de encenação e se atracaram. Alguns minutos depois ele abria com pressa os botões do vestido, Ela enfiava, aflita, a mão dentro da calça dele. Havia urgência naquilo, de como se não houvesse tempo a perder. Era como se matassem uma fome, ou tentassem estancar um sangramento. Era como se fosse um remédio, um placebo, para uma dor antiga. E então terminou sem deixar vestígios. Ele a deixou em sua casa, ela se despediu após se certificar de ouvir com um sorriso a promessa de telefonemas dele. É claro que trocariam telefonemas assim que a fome retornasse. Ou talvez não.
Terminava mais uma noite.

Ele chegou à lanchonete pouco antes do sol nascer, pediu uma última cerveja e o lanche de sempre. Sentou-se na varanda e acendeu um cigarro, olhando fixamente para o ponto de ônibus do outra lado da rua. Aos poucos o céu começava a clarear, ele já havia acabado de comer mas continuava como uma estátua olhando para aquele ponto de ônibus. Não sorria, não pensava na morena que acabou de deixar em casa, ou em cerveja, ou em qualquer outra coisa. Acendia um cigarro no outro, aflito, e apenas ficava ali, com os primeiros raios de sol refletindo nas fachadas envidraçadas da avenida.

E foi então que ela apareceu. Delgada e sonolenta, cruzando a rua. Seus passos eram sem vontade. Usava um casaco vermelho sobre o uniforme do trabalho, um detalhe inusitado quebrando a rotina. Ele debruçou-se na varanda e olhou, tentando conter, como sempre, as lágrimas. Lá estava ela, e eles não estavam mais juntos há muito tempo. Algumas vezes ela olhava na direção dele e desviava o olhar. Algumas vezes ele se sentia estúpido e ia embora antes que ela chegasse ao ponto de ônibus. Algumas vezes, como esta, ele apenas ficava ali.
Certa vez ele ficou quase um mês sem aparecer naquela varanda para ver aquela mulher, a quem amou feito um cachorro louco, cruzar a rua e pegar aquele ônibus.
Foi a única vez que ela ligou dizendo que tinha saudades dele. Encontraram-se e beijaram-se como nos velhos tempos, e então nada deu certo, como nos velhos tempos. Em velha e conhecida dor se separaram. Desde então ele não mais a procurou, nem ela o fez. Apenas se sentava, com a devoção de um viciado naquela varanda da lanchonete, olhava ela chegar, fingir que não o via e ir embora.
Era o pior dos vícios. Um veneno que o matava um pouco a cada nova manhã.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Vencer, vencer, vencer



Chegamos e como diz o ditado, deixou o Flamengo chegar fodeu.
Um a um eles foram amarelando e caindo, abrindo passagem para o Mengão: Inter, Atlético, Palmeiras, sentiram a pressão de ver o Fla se aproximando. Agora resta o mais forte deles, o que apoiado em três títulos consecutivos não se abalará fácil, não entregará o ouro. Eles são frios e eficientes, jogam feio e sem graça mas ganham e não se abalam. O São Paulo é quase a nossa antítese.

Para ganharmos esse título será necessário como diz nosso hino: Vencer, vencer, vencer.
Vencer o Goias, vencer o Corinthians e vencer o Grêmio.
Vencer, vencer, vencer. Nada mais nos resta.

Temos mais time, mais confiança e mais torcida, chega de humildade que ela não combina com o Flamengo, podemos dar vazão ao nosso justo complexo de superioridade, não é arrogância. Somos melhores é fato. Temos a força e a vocação de campeões.
A vibração da torcida e a entrega dos jogadores nos torna insuperáveis. Comandado pelo Andrade e com Pet e o Imperador jogando muito, o Flamengo está de volta ao seu lugar de direito, aterrorizando os adversários e quem amarelou foi atropelado mesmo.
Confiança e seriedade, sem oba oba. Sem “respeitar” adversários menores, como fizemos muito bem com o Náutico ontem. Onde quer que jogue o Flamengo se impõe. Esse é o Mengão.

Dois pontos nos separam do líder, dois pontos para levantarmos o caneco do Hexa.
É só vencer, vencer, vencer.

Nota: Totalmente inspirado na crônica do Arthur Muhlenberg

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Ela vinha andando, acompanhada da nuvem do azar acima da cabeça, como um guarda de sol furado, por onde descem os pingos d'água. Há muito tempo se sentia assim e cada vez mais se apertava o nó do peito.
Chegou em casa, limpou as sandálias no tapete puído da porta da cozinha, repousando-as ao lado da geladeira vazia, cortou uma fatia de bolo imaginário como quem quer alegrar a fome. Quem não tem comida, se contenta só com o cheiro do tempero.
Cansaço. Sentiu-se pesada, era preciso retirar a sujeira da rua, como se limpar o corpo aliviasse a alma.
Abaixou até o balde com um caneco vermelho, vlup pra cima, glup pra baixo, banhou-se como se fosse apenas uma falta de água temporária.

Escreveu alguns rabiscos num papel que trazia da rua. Folheou um pequeno álbum de retratos desses com a paisagem mais bonita da cidade estampada na capa, como se zombasse de toda a tristeza da situação. Lembranças em cada página, em cada retângulo, um monte de janelinhas que a faziam devanear... Saudade. Solidão. Angustia.

A dor física a trazia de volta à realidade. Enxugou o olho esquerdo, dizendo a si mesma que era só um cisco.
Um cisco de 7 anos que insistia em incomodar todas as noites. O cisco que acabou com sua vida antes mesmo que a morte a alcançasse.
Fantasiou até o fim: Escovou os dentes, colocou a velha camisola e despencou para trás.
Morreu como quem dorme.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Do alto

As turbinas roncaram, a aeronave acelerou e, de repente, estávamos voando, um monte de desconhecidos reunidos ganhando o céu, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Eu pensando que se o avião caísse, provavelmente iriamos todos morrer juntos. Talvez, nesse instante da queda, nos abracaríamos, faríamos declarações de amor à vida e ao próximo, numa lamentável e patética união, só alcançada diante da morte iminente.

E lá embaixo estava a cidade, planície e mar. Olhando em terra só horizonte, horizontal. Do ar, via apenas minúsculas pessoas e carros transitando por uma malha de edificações, onde vidas são vividas e a maioria delas não se mistura. E lá, deixo uma minúscula partícula se comparada à cidade, mas imensa parte da minha vida.

Lá sei que minha ausência, não fará falta a ninguém, Com exceção daquela lindinha que deixei para trás, depois de juntos compartilharmos alguns poucos e saborosos dias. Mas até ela, se quisesse, esqueceria de mim com o tempo e a distância, guardando, na melhor das hipóteses, apenas uma bela lembrança.

Fazendo ou não diferença a minha presença ou não naquela cidade, senti no momento da partida, a ausência do não vivido, daquilo que poderia ter sido, caso não tivesse que partir, caso pudesse viver de verdade naquele lugar, ou melhor ainda, caso pudesse viver uma vida diferente. E pela qual pagava na despedida um alto preço. O preço da tristeza inexplicável, da dor incontrolável e absurda, por justamente não ser a falta do que passou, mas ser a dor do não vivido – uma pequena morte, ainda mais latente que um dia a menos em nossa existência...

...Nuvens, céu, sol, terrenos diferentes. Uma parada numa outra cidade. O Avião esvazia, eu fico, novas pessoas entram. Um jovem casal a quem eu cedo gentilmente o lugar para poderem viajar lado à lado de mãos dadas... Sorrio por empatia e com uma pontada de inveja. São só pessoas continuando com suas vidas independentes, todas insignificantes como a minha.
Novo ronco, aceleramos mais uma vez, fomos ao ar novamente, outras nuvens que parecem as mesmas, monotonia... Cochilei...

...Montanhas familiares, mar familiar. Lar?
Me lembrei então de como gosto desse lugar, e que geografia não importa tanto. Não é o ponto é a distância. Na cidade horizontal e ortogonal ou na ondulada e labiríntica, melhor juntos do que separados.

Novamente pensando no ainda não vivido. O chão se aproximava.
Quantas vidinhas pequenas se espremem, vem e vão, em diversas direções conhecidas no relevo acidentado de tão maravilhosa cidade? E se cruzam e se encontram e desencontram e se perdem em seu transito caótico, sem que a esmagadora maioria se importe ou perceba tanta vida ou tanta morte?

Cada momento morre quando nasce, não adianta se nele se fala ou se cala. E ali do alto, eu pensava somente em conhecer, partilhar, me aprofundar em apenas uma vida... A dela.