Mostrando postagens com marcador morte. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador morte. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Felicidade

Todo mundo achava graça quando ele dizia, com seu cinismo habitual, que a felicidade existia e tinha até telefone.

Afirmava que ligava com frequência, quase sempre quando se sentia triste e desesperado. E brincava alegando que essa era a única felicidade que recebia suas chamadas.

Não chegava nem a falar com ela, quando atendiam o telefone, perguntava apenas se a felicidade estava e desligava logo em seguida, confortado apenas com o fato de saber que ela estava lá, que existia.


Até que:

“Não foi possível completar a sua chamada, o número discado não existe...”


Não houve lista telefônica que o salvasse, chegou mesmo a procura-la no antigo endereço que se recordava, mas apenas confirmou que se mudara, talvez para outro país. Ninguém sabia ao certo, todos com quem falou mal conheciam a felicidade para dar-lhe informações mais precisas.

Isso o deixou tão fora de si, que fez uma tentativa de suicídio. Como tudo que fazia na vida, realizou a tarefa com muito empenho e pouca sorte. Tanto assim que foi bem sucedido na primeira tentativa, sem nem mesmo estar a espera. Morreu sem deixar testamento ou carta de despedida.


A felicidade não foi ao funeral, mas telefonou para dar os pêsames.

.

domingo, 26 de setembro de 2010

À primeira vista

Aconteceu numa blitz de rotina. Ele encostou o carro sem demonstrar qualquer preocupação, foi solícito e simpático ao apresentar os documentos. À primeira vista tudo certo, mas mesmo assim o policial achou por bem revistar o carro. O rapaz não viu problema algum nisso e sem protestar permitiu a revista. Tudo aparentemente normal até que o policial pediu que abrisse o porta malas. Ele obedeceu prontamente, foi então que as coisas começaram a ficar estranhas.
Para surpresa do policial havia um cadáver na mala do carro. Era o corpo de uma garota confortavelmente deitado sobre almofadas e edredons.
O Rapaz permaneceu estranhamente calmo e com uma tranquilidade perturbadora respondeu a todas as perguntas dos policiais.
Explicou que o a garota era sua namorada e a transportava dessa maneira, porque assim ela se sentia bem mais confortável. Quando perguntaram como ela tinha morrido, ele respondeu que não sabia, porque quando a conheceu já estava morta. Ao olhar a face incrédula dos policiais, não se perturbou e ainda acrescentou que apesar de calada ela era muito divertida e uma ótima companheira.
Antes de encaminha-lo para a delegacia, ocorreu uma última pergunta ao policial: Como foi que se conheceram?
O Rapaz deu um sorriso radiante e seus olhos brilharam enquanto sua mente o levava de volta àquele dia glorioso. Inflado pela nostalgia, respondeu que haviam se conhecido num funeral, foi amor à primeira vista. Viu-a ali tão linda, tão suave, deitada e rodeada por flores. Não teve dúvidas, tomou-a nos braços e fugiram.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Serenamente Morta

Encontraram-na deitada na cama, serenamente morta. Ataque cardíaco, disseram, e a certeza era tanta que ninguém via necessidade de uma autópsia. Porém um amigo muito querido afirmou solenemente estar convencido que ela tinha morrido de tristeza. Não estava sugerindo nenhum tipo de suicídio, esclareceu, mas queria apenas dizer que ela simplesmente tinha saído da vida discretamente, sem que ninguém desse conta. Morria devagar, um pouquinho a cada dia até não sobrar vida nenhuma dentro dela.
Às vezes acontece e não é tão raro como se pode pensar. Soube que aconteceu a mesma coisa a um sujeito a quem a mulher abandonou para ir viver com outra. E também com uma vizinha cujo marido faleceu depois de sessenta anos juntos. A senhorinha não aguentou nem uma semana, morreu logo depois afogada na tristeza.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Cão de Guarda

Orelhas de pé. Atento. Era preciso vigiar.
O dono ali, sentado no sofá. Cabia a ele protege-lo, Instinto, gratidão ou mero condicionamento, a origem da força de sua devoção não estava clara. Sua mente de cão não se importava com essas coisas, não devaneava. só vigiava, montava guarda. Puro propósito.
O dono tão tranquilo, distraído, tão desavisado dos perigos. O cão não, esse estava sempre alerta. Latindo ao menor perigo, e sempre eram muitos: os pássaros que insistiam em pousar no jardim, algum gato vagabundo invadindo seu território. Ou o pior inimigo: o outro homem vestido de amarelo e azul que de vez e quando tentava invadir sua casa.

Ali só entravam ele e o dono. Não haviam outros, não recebiam visitas, não haviam crianças para afaga-lo, para lhe atirarem bolas coloridas, ou qualquer outra brincadeira, fora assim desde sempre. Ele, o dono e a casa. Todo o resto era hostil, indesejado.
Ele como bom cão dava o alerta, latia demostrando que ninguém era bem vindo.
Não era de brincadeiras, era sério, sisudo, intimidador. O puro reflexo do dono.
Chegou àquela casa ainda filhote, para substituir um outro cão, mas ignorava o passado. Era apenas o presente, também não pensava no futuro. Uma refeição por dia, sempre a mesma hora, um banho por semana, sempre no mesmo dia. Tijela de água na área de serviço. Rotina imutável.
Só conhecia o quintal, nada além dos altos muros e do pesado portão. E assim cresceu treinado e moldado para proteger esse seu pequeno território.

E agora que o dono estranhamente não acordava, ele sentia que era preciso vigiar ainda mais. Guarda montada ao redor do sofá. Eventualmente se deitava aos pés imóveis do homem, mas a qualquer pequena perturbação as orelhas subiam novamente e se mostrava atento.
O tempo corria e outras necessidades se faziam presentes. Lambeu a mão do dono, mãos que o alimentavam desde de filhote. A fome e a sede apertavam, tornando-o mais agressivo, mais irritado, mas se recusava a deixar o posto.

Antes de cão era bicho, e viu-se obrigado a procurar por alimento e água. Afinal saco vazio vazio não para em pé, como poderia vigiar se não tivesse forças?
Apenas cretinices de um narrador humano. Seu cérebro canino não se ocupava com essas questões, o caso foi apenas que a fome e a sede eram mais urgentes, o instinto de autopreservação falou mais alto. Percorreu a casa, porta da rua trancada, não tinha como sair. Por sorte a tampa da privada estava levantada e pode pelo menos matar a sede. Mas a fome ainda estava lá. Farejou a cozinha, revirou lixeiras. Encontrou alguns restos sobre a mesa, teve que servir.

Outro dia já ia amanhecendo deitou-se aos pés do sofá de volta ao posto. E novamente ao menor ruido as orelhas subiam. Dormia, mas continuava atento. Durou pouco, a fome apertou.
Lambeu novamente a mão do dono, nada dele se manifestar, seu cheiro estava estranho, sabia que havia algo errado, mas precisava, guarda-lo protege-lo. Sempre foi sua única companhia, eram só ele e o dono.
Os dias passavam imutáveis, nova rotina, a fome e a sede ditavam as regras, determinavam os horários.
Os dois trancados na casa sozinhos. À noite seus instintos passaram a ser mais exigidos, ratos começaram a rondar o local, no inicio foram tratados como invasores e espantados aos latidos. Algumas noites depois se tornaram presas, comida fresca. Os farejava e tentava caça-los. Só que nesse jogo de caçada os ratos levavam vantagem, passaram a vida se escondendo de predadores e dos humanos, a seleção natural os tinha tornado furtivos e velozes, enquanto ele era animal doméstico, acostumado a ser alimentado. Barulhento e desajeitado. Os ratos ganhavam sempre.

Os restos de comida da cozinha escassearam rápido, já que agora eram divididos com os roedores. A fome era maior, em desespero subiu no colo do dono choramingando lambeu-lhe o rosto gelado e estático. Sentiu então um gosto bom, sentiu o sangue seco que lhe escorria pelo queixo e empapava o peito, lambeu tudo com voracidade, o estomago precisava ser saciado, lambeu as mãos, aquelas mãos que o alimentavam.

O cheiro era outro, de sangue e carne. Acordou a alma de lobo, grunhiu tristemente não se sabe o porque, talvez um resquício da gratidão condicionada pelos anos de convivência, pelas gerações anteriores de cães de guarda que vieram antes dele. O lamento foi o ultimo ato do cão doméstico e o despertar de uma fera ancestral.

Mordeu, mastigou, se satisfez.
Deitou as pés do sofá como sempre fazia, as orelhas atentas a qualquer ruído, era preciso montar guarda, protegia não o homem o dono, mas a comida. Havia muita carne ali e não deixaria que os ratos pegassem nenhum pedacinho do que era seu.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Instante

A adrenalina baixou. Seu coração parecia que ia voltar a bater normalmente. A respiração ofegante entrecortava seus pensamentos, apenas flashbacks confusos e em câmera lenta do que acabara de ocorrer. Imagens desconexas de uma explosão de fogo e fúria.
Não acreditava, mas era ele mesmo ali. A dor no estomago característica do seu nervosismo estava lá para lembra-lo de que não era sonho.
Haviam sons, muitos sons, mas tudo era um ruido abafado, só o vento era perceptível uivando baixinho no seu ouvido um zumbido doce e triste. E lá estava ela, aqueles olhos cor de gasolina se destacando na paisagem desfocada. Não consegue lembrar do nome, mas não pergunta e ela por sua vez não reponde. Apenas o olhar colorido, brilhante e lacrimoso. Queria toca-la, estendeu a mão mas só achou o vazio do ar.
Desiludido, fecha os olhos, quer dormir tomado por um desejo irresistível de descansar. Os abre novamente, ela ainda está ali. A distancia entre eles desaparece num vazio escuro, o ventou uiva mais forte e ele se vê com treze anos em queda livre quando caiu do galho mais alto da mangueira do quintal, um arrepio percorrendo a espinha.
Então tudo para e ele está de volta à paisagem desfocada, porque as mãos dela o tocam como uma folha que cai lentamente de uma árvore. Estão tão quentes, e ele toma consciência do frio que sente.
Não era sonho de fato.
Sinto muito ela diz e ele não ouve, mas pode ler a frase em seus olhos. Olhos que bastariam a mais pequena fagulha, para se inflamarem novamente.
Ele percebe o sangue na camisa escura do trabalho. A dor que já não sente. O ar que não preenche os pulmões. Se da conta de que aquilo tudo é o fim, a ansiedade do ultimo suspiro, e junto com ele o uivo do vento traz o nome à lembrança: Bel... Isabel. A maldita.