domingo, 24 de julho de 2011

Linha

A linha não tinha cor definida, impossível dizer se era azul ou cinza, ou outra cor qualquer que fosse. Brilhava, mas era um brilho estranho, meio embaçado... Antigo. Também não se percebia começo ou fim, estendia-se para além do olhar. Não era reta, mas sua curvatura não era constante, não era fixa, parecendo ondular ou vibrar. Era tão diferente que chegava a iludir os sentidos, não tinha cheiro, pelo menos eu não senti nenhum, e embora parecesse zumbir não emitia sons.

Tentei toca-la, mas não a alcançava. Prendi a respiração, tomei distancia, corri e saltei o mais alto e distante que pude... Consegui! Tinha passado para além da linha. Com certo receio avancei um pouco explorando o novo território, mas quando virei para trás a linha não estava mais lá, havia desaparecido. Não havia referencia, eu estava perdido.

Foi só então que me dei conta do risco, aquela não era outra senão a tênue linha que separa a normalidade da loucura. Frágil e inconstante limite entre dois mundos.

Tentei manter a calma. Primeiro olhei em todas as direções para confirmar o seu desaparecimento. Depois revirei os bolsos, não sabia muito bem o que procurava, mas achei. Uma caneta Bic com a tampa mordida... Não me pertencia, mas, por uma dessas confusões comuns do dia a dia, havia colocado no bolso em algum momento do qual não me lembrava.

Com ela tracei uma nova linha, o mais parecida com a primeira possível, atravessei-a. Respirei aliviado tinha conseguido regressar do lado de lá...

domingo, 22 de maio de 2011

Bala perdida.

A bala estava adormecida dentro da arma há tanto tempo que nada parecia ter acontecido no mundo desde então. Despertou perturbada transformando-se em trajetória. Da explosão da partida até o som abafado da chegada, traçou uma linha mortal. A bala antecipou o impacto, via com toda nitidez o ponto exato e letal onde iria penetrar o corpo do homem. Quis desviar-se, desejou que entre ela e o homem se erguesse um obstáculo, mas nada podia fazer. A despeito de suas vontades era incapaz de evitar seu destino, sentiu-se perdida, completamente perdida.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Pequeno devaneio da madrugada

A água cai a cada porção de segundos exatos, cai como rotina, como a gravata às oito horas e o engarrafamento execrador às dezoito e quarenta e cinco, mas já é madrugada e eu ainda trabalhando.

Me pego pensando como seria o sofrimento de um jovem preso em um escritório ou sala de estar que seja, sem paciência e nenhuma chance de escapar, com essa mesma água pingando sucessivamente ao redor e o eco borrando o som, a dor auditiva seguida sempre de uma repetição embaçada. Aquele vento que em breve o aniquilaria, azar ou destino, falta de oxigênio e a convicção de uma morte insuportável. A loucura dominaria seu cérebro cansado, o pingo e a respiração fechada, tlim,tlim, tlim... Ele logo abandonaria a resistência, a calma atingiria sua alma que já aceitou seu fim, parcial ou total sei lá. Ele sentiria um ódio irresistível por toda fé depositada em qualquer força maior que não ajudara, solta um último puta que pariu, porra! E cai em gargalhadas, lembrando das dores dos amores, das flores, dos sonhos, dos tombos e desmaia.

Desmaio. Porque amanhã pela manhã, com ou sem chuva, vem o encontro com a rotina.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Arnaldo Estevão dos Santos conheceu o Diabo.

Foi numa solitária noite em que o Flamengo havia sido eliminado da Copa Toyota Libertadores da América. Dois gols do maldito gordo Cabañas. Noite triste aquela, mais triste e vazia do que de costume e o Diabo simplesmente apareceu com uma garrafa de conhaque debaixo do braço, um sorriso sarcástico e palavras de compreensão.
O Diabo não é bonito, mas é simpático e tem aquela pinta de cafajeste bem vestido que faria sucesso com as mulheres se ele estivesse interessado na própria luxúria.

Enquanto a garrafa esvaziava O Diabo lhe falava sobre castelos escoceses, monges tibetanos, banqueiros americanos e prostitutas russas. Obviamente ele era muito bom de conversa e um grande contador de histórias. Contou um caso realmente engraçado sobre o pacto que fez uma apresentadora de programas infantis. O Diabo era bem relacionado.

Arnaldo era até então um pobre coitado derrotado pela vida, não que não estivesse onde realmente merecia, mas a consciência disso não o impedia de desejar coisas melhores. Não era burro e muito menos ingenuo, pelo contrário era bastante esperto , não devia ficar muito atrás do próprio diabo nesse sentindo.
“Tu é um cara legal... Um grande filho da puta, mas legal” O Diabo apenas sorri e lhe serve mais uma dose.
“Não que eu seja um bocó sentimental, mas essa lua mas esse conhaque botam a gente comovido como o diabo”
“Só Drummond só Drummond só Drummond só Drummond...” Cantarola o Diabo.
Gargalhadas enchem o ambiente e Arnaldo ergue seu copo num gesto de brinde: “À filha de Baby”.

A noite escorre pelo ralo da madrugada e a garrafa finalmente esvazia.
Com o diabo não tem linhas tortas, o papo é reto, a entrega garantida e o pagamento obrigatório.
Quando os primeiros raios de sol aparecem no horizonte O Diabo faz sua proposta. Arnaldo deve fazer uma lista com o nome de algumas pessoas, as que ele mais ama no mundo. Apenas isso por enquanto. O resto se acerta depois.
É claro que coisa boa não há de vir do Diabo, mas Arnaldo é o tipo de sujeito que, como dizem, venderia a própria mãe. Não pensa muito e decide fazer a tal lista.

E tudo muda na vida de Arnaldo. Ele conhece os castelos escoceses, os monges tibetanos, banqueiros americanos, as prostitutas russas e muito mais. Tem noites tórridas de sexo com a apresentadora de programa infantil que também fez pacto com o Diabo, mas usa camisinha pra não correr o risco de botar o anticristo no mundo. Há dinheiro, há mulheres, O Flamengo é Campeão Brasileiro e, em um bar qualquer, alguém dá um tiro na cabeça do Cabañas. A vida nunca foi tão boa.

Até que numa noite diferente, mas bem parecida com a primeira, apesar da vitória o Flamengo é novamente eliminado da Libertadores... E aparece o Diabo para cobrar a dívida.
Dessa vez não há conhaque, não há histórias, não citações de poetas, não há sorrisos nem papo furado.
Com o diabo não tem linhas tortas, o papo é reto, a entrega garantida e o pagamento obrigatório.
A lista é posta na mesa, as pessoas que ele mais ama. Terá que matar todas, uma por uma.
Arnaldo não titubeia, chega até mesmo a sorrir. Matar... Nunca havia feito isso antes.
E começa pelo primeiro nome da lista, a pessoa que ele mais ama no mundo... Ele mesmo.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Subindo para cima.

Um homem aparentando vinte anos vandalizou trinta e nove carros numa distância de pouco mais de quinhentos metros, e só parou por que foi detido pela polícia. Um circulo de pessoas logo se juntou enquanto os policias seguravam o rapaz tentando contê-lo.

Quando se acalmou, afirmou (com uma perturbadora convicção) que era um anjo caído do céu. Gargalhada geral na plateia de curiosos.

Estava descalço, vestido com uma bata branca e era mesmo angelicamente belo. Evidentemente ninguém acreditaria nele, afinal não tinha asas e além disso o senso comum acha muito duvidosa a existência de anjos. Só podia ser louco.

Perguntaram então porque havia tentado quebrar os vidros e espelhos dos carros. Encolheu os ombros e disse que havia se deixado fascinar por sua imagem refletida, e ficou balbuciando a palavra vaidade repetidamente.

As pessoas já começavam a se desinteressar e deixar o local, quando o rapaz começou a subir na vertical, com toda redundância que a extraordinária ação merece. E lá ia ele, lenta e inexoravelmente, subindo para cima como o mais sincero dos balões. Os policiais olharam para o alto, para acima dele, procurando uma explicação. Um deles então disparou um tiro de advertência para o alto que, por pura falta de sorte, lhe acertou diretamente no coração. Ascensão interrompida, o copro foi direto para o solo como a mais infeliz das gotas de chuva, onde caiu imóvel.

No fim das contas era apenas um homem, porque os anjos são puro espírito e não são mencionados em relatórios da Anistia Internacional como vítimas da violência policial... Anjos estão, com toda certeza, acima dessas coisas.