quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Breguice

Eu queria escrever sobre minha saudade. Saudade de uma ilusão boa. Falar da sua boca de eterno sorriso. De incontáveis pontinhos e de uma certa baleia. Escrever sobre um cisco no olho e fios de cabelo. Saudades de mãos, bocas , suor e de um ar condicionado que não funciona. Falar de peitinhos atrevidos e um bom pedaço de bunda. Queria escrever sobre beijos e rangidos, sobre patinhas de elefante e nomes de panda.
Eu queria falar dos meus olhos cativados pelos seus movimentos. Queria poder escrever um livro inteiro com seus movimentos. Escrever toda essa saudade.

Falta talento, falta muito. Me falta essa sua habilidade peculiar com as palavras, essa maneira tão sua de dizer as coisas, as vezes dizer sem dizer. Falta em mim o brilho que me atraiu em você.
Então eu desisto, da mesma maneira patética como evito enviar uma mensagem do meu celular pela manhã assim que acordo. Sabendo que é inevitável não pensar em você o dia inteiro. Ridículo.

Não sei quando comecei a te amar, talvez antes mesmo de te conhecer, enquanto ouvia uma música melosa, ou assistindo a algum destes filmes de romance que passam na tv.
A paixão ilude, eu sempre soube. Dois pés atrás sempre. Negação que me foi inútil. Cai no poço em queda livre. Como na expressão em inglês: falling in love. Mais brega impossível. Hoje estou assim, tão meloso que enjoa, quase mulherzinha.

Com o tempo aprendi que você não é o meu personagem perfeito, mas é o que existiu de mais próximo. Depois que te conheci, esses filmes perderam ainda mais o sentindo. E o desprezo por contos de fadas é maior. Eu podia ficar aqui escrevendo das histórias que passam na terra-do-nunca que existe dentro de mim. Eu poderia escrever cenas encantadas com trilha sonora dos teus discos prediletos.

Mas eu tenho uma vida real, nós temos uma vida real. Problemas reais. Medo de acreditar em romance de filme bobo. E quando eu falo de você, falo mesmo do meu lado mais bobo. O meu lado impossibilitado de gostar de você apenas de forma simplória como na vida real.
Não quero sonho, quero o sólido e o abstrato. Quero a aventura. Quero a rotina. Quero tudo.

Falar de você é acreditar naquelas coisas que eu passei o vida inteira fingindo não acreditar.
Falar de você é expor aqueles segredos que a gente guarda a vida inteira. É me dar chance de lembrar das situações felizes que eu ainda não criei para nós dois.
Falar de você é mais do que libertar lembranças redundantemente passadas e contraditoriamente futuras.

Falar de você é correr o risco assustador de ser bem entendido.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Cão de Guarda

Orelhas de pé. Atento. Era preciso vigiar.
O dono ali, sentado no sofá. Cabia a ele protege-lo, Instinto, gratidão ou mero condicionamento, a origem da força de sua devoção não estava clara. Sua mente de cão não se importava com essas coisas, não devaneava. só vigiava, montava guarda. Puro propósito.
O dono tão tranquilo, distraído, tão desavisado dos perigos. O cão não, esse estava sempre alerta. Latindo ao menor perigo, e sempre eram muitos: os pássaros que insistiam em pousar no jardim, algum gato vagabundo invadindo seu território. Ou o pior inimigo: o outro homem vestido de amarelo e azul que de vez e quando tentava invadir sua casa.

Ali só entravam ele e o dono. Não haviam outros, não recebiam visitas, não haviam crianças para afaga-lo, para lhe atirarem bolas coloridas, ou qualquer outra brincadeira, fora assim desde sempre. Ele, o dono e a casa. Todo o resto era hostil, indesejado.
Ele como bom cão dava o alerta, latia demostrando que ninguém era bem vindo.
Não era de brincadeiras, era sério, sisudo, intimidador. O puro reflexo do dono.
Chegou àquela casa ainda filhote, para substituir um outro cão, mas ignorava o passado. Era apenas o presente, também não pensava no futuro. Uma refeição por dia, sempre a mesma hora, um banho por semana, sempre no mesmo dia. Tijela de água na área de serviço. Rotina imutável.
Só conhecia o quintal, nada além dos altos muros e do pesado portão. E assim cresceu treinado e moldado para proteger esse seu pequeno território.

E agora que o dono estranhamente não acordava, ele sentia que era preciso vigiar ainda mais. Guarda montada ao redor do sofá. Eventualmente se deitava aos pés imóveis do homem, mas a qualquer pequena perturbação as orelhas subiam novamente e se mostrava atento.
O tempo corria e outras necessidades se faziam presentes. Lambeu a mão do dono, mãos que o alimentavam desde de filhote. A fome e a sede apertavam, tornando-o mais agressivo, mais irritado, mas se recusava a deixar o posto.

Antes de cão era bicho, e viu-se obrigado a procurar por alimento e água. Afinal saco vazio vazio não para em pé, como poderia vigiar se não tivesse forças?
Apenas cretinices de um narrador humano. Seu cérebro canino não se ocupava com essas questões, o caso foi apenas que a fome e a sede eram mais urgentes, o instinto de autopreservação falou mais alto. Percorreu a casa, porta da rua trancada, não tinha como sair. Por sorte a tampa da privada estava levantada e pode pelo menos matar a sede. Mas a fome ainda estava lá. Farejou a cozinha, revirou lixeiras. Encontrou alguns restos sobre a mesa, teve que servir.

Outro dia já ia amanhecendo deitou-se aos pés do sofá de volta ao posto. E novamente ao menor ruido as orelhas subiam. Dormia, mas continuava atento. Durou pouco, a fome apertou.
Lambeu novamente a mão do dono, nada dele se manifestar, seu cheiro estava estranho, sabia que havia algo errado, mas precisava, guarda-lo protege-lo. Sempre foi sua única companhia, eram só ele e o dono.
Os dias passavam imutáveis, nova rotina, a fome e a sede ditavam as regras, determinavam os horários.
Os dois trancados na casa sozinhos. À noite seus instintos passaram a ser mais exigidos, ratos começaram a rondar o local, no inicio foram tratados como invasores e espantados aos latidos. Algumas noites depois se tornaram presas, comida fresca. Os farejava e tentava caça-los. Só que nesse jogo de caçada os ratos levavam vantagem, passaram a vida se escondendo de predadores e dos humanos, a seleção natural os tinha tornado furtivos e velozes, enquanto ele era animal doméstico, acostumado a ser alimentado. Barulhento e desajeitado. Os ratos ganhavam sempre.

Os restos de comida da cozinha escassearam rápido, já que agora eram divididos com os roedores. A fome era maior, em desespero subiu no colo do dono choramingando lambeu-lhe o rosto gelado e estático. Sentiu então um gosto bom, sentiu o sangue seco que lhe escorria pelo queixo e empapava o peito, lambeu tudo com voracidade, o estomago precisava ser saciado, lambeu as mãos, aquelas mãos que o alimentavam.

O cheiro era outro, de sangue e carne. Acordou a alma de lobo, grunhiu tristemente não se sabe o porque, talvez um resquício da gratidão condicionada pelos anos de convivência, pelas gerações anteriores de cães de guarda que vieram antes dele. O lamento foi o ultimo ato do cão doméstico e o despertar de uma fera ancestral.

Mordeu, mastigou, se satisfez.
Deitou as pés do sofá como sempre fazia, as orelhas atentas a qualquer ruído, era preciso montar guarda, protegia não o homem o dono, mas a comida. Havia muita carne ali e não deixaria que os ratos pegassem nenhum pedacinho do que era seu.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Feliz Idade

Seu Ismael amanheceu mais carrancudo e impaciente que o costume. Seus oitenta e muitos anos deveriam ter sido mais gentis e trazido alguns lapsos de esquecimento, como acontece com qualquer outro velhinho. Este era o problema: lembrava de todos os erros da vida, e de todas as coisas boas de que já não podia usufruir. Tinha uma consciência ardente de suas limitações e do seu limite.

E naquele dia, mais do que em qualquer outro, a neblina dos anos se tornava mais densa, mais fria... A solidão era pesada, maciça, física. Sentado à mesa seu Ismael observava Damiana, que pacientemente servia o café. Companhia que lhe custava alguns poucos dinheiros por mês. Nada agradavel, o tormento do contraste ardia-lhe as entranhas: Inveja.

Ela menina! Com seus seus vinte e poucos. Ainda tonta das ilusões que a vida oferece no frescor dos anos. Carnes firmes, movimentos rápidos e precisos contrastando com seu espetáculo particular: Uma mão vacilante, trêmula, enrugada e manchada que tateia em busca da xícara. Alcança-a, não sem deixar cair algumas gotas negras sobre a delicada toalha branca.
O líquido descia quente pela sua garganta, enquanto esperava que o dia , que mal começara, acabasse junto com todos os outros que ainda viessem.

Era mais um dia de angústias e de nulidade.
Mais um argumento para defender a morte.
Mais um motivo para não se comemorar.
Era mais um aniversário.