segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Feliz Idade

Seu Ismael amanheceu mais carrancudo e impaciente que o costume. Seus oitenta e muitos anos deveriam ter sido mais gentis e trazido alguns lapsos de esquecimento, como acontece com qualquer outro velhinho. Este era o problema: lembrava de todos os erros da vida, e de todas as coisas boas de que já não podia usufruir. Tinha uma consciência ardente de suas limitações e do seu limite.

E naquele dia, mais do que em qualquer outro, a neblina dos anos se tornava mais densa, mais fria... A solidão era pesada, maciça, física. Sentado à mesa seu Ismael observava Damiana, que pacientemente servia o café. Companhia que lhe custava alguns poucos dinheiros por mês. Nada agradavel, o tormento do contraste ardia-lhe as entranhas: Inveja.

Ela menina! Com seus seus vinte e poucos. Ainda tonta das ilusões que a vida oferece no frescor dos anos. Carnes firmes, movimentos rápidos e precisos contrastando com seu espetáculo particular: Uma mão vacilante, trêmula, enrugada e manchada que tateia em busca da xícara. Alcança-a, não sem deixar cair algumas gotas negras sobre a delicada toalha branca.
O líquido descia quente pela sua garganta, enquanto esperava que o dia , que mal começara, acabasse junto com todos os outros que ainda viessem.

Era mais um dia de angústias e de nulidade.
Mais um argumento para defender a morte.
Mais um motivo para não se comemorar.
Era mais um aniversário.

9 comentários:

  1. acompanhei cada quadro parecia um 'curta'. Você é roteirista ou cineasta? Um filme real, contexto do cotidiano urbano o vazio e o abandono. Mas hoje, há (eu creio)roteiros com uma outra fotografia.
    Parabéns. Você escreve com muita verdade.
    Abraços e boa semana!

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  2. Nossa, como a velhice pode ser entediante para alguns, não é mesmo ?
    Nem todos os velhos são iguais...

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  3. Mata o velho! se ele morre, morre feliz com o que viu, pior é ser velho e ser cego.rsrsrs

    beijosss

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  4. foda não ser mais o que era.

    abraço, rubro-negro

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  5. mesmo 'sobrecarregada' de experiência, de erros e acertos eu quero fazer muitos aniversários...
    bjs

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  6. Mai:
    Não sou cineasta nem roteirista, Não escrevo com verdade, mas sim com muita mentira e uma cara de pau enorme.

    Sunflower:
    São oitenta e muitos a idade do velho, tá escrito ali na segunda frase.

    Nat:
    Pode crer tá cheio de velhos alegres por aí. Ainda masi depois do viagra. Dá para ser adolescente pela visa inteira.

    Aline:
    Putaria é bom, mas esse velho não está afim de ser feliz, nem na hora da morte.

    Paulo Bono:
    É exatamente esse o ponto.

    Insanos:
    Se diminuiu não foi proposital. Eu não percebi.

    Sentimental:
    Por enquanto concordo total contigo.

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  7. ufa, ainda bem, pq ultimamente quase todo mundo q conheço acha q envelhecer não vale a pena...
    bjs

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